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CHAPEUZINHO COR-DE-ROSA

CHAPEUZINHO COR-DE-ROSA

Manhã de sol em céu esplêndido. A janela mostrou. Mas naquela manhã Chapeuzinho Cor-de-Rosa não estava para nada. Preferia ficar ali na cama, preguiçando e pensando. Um pouco da madorna que todo mundo merece. Não deu. Da cozinha ela ouviu insistentes apelos:

_Chapé-éu!…Cha-pé-éu!…Chaa-péuu!!!_Era a mamãe, claro. Tudo na praxe.

_Tô indo!_Toalete sumária e vestiu-se às pressas para mais um dia de trabalho. Olhadinha no espelho para conferir. Puxa, tava linda que só! Mas faltava alguma coisa, adivinha o quê? Claro… Tomou do cabide a capinha cor-de-rosa e, agora sim, sentiu-se ela mesma. Com os cabelos macios escapando sob o capuz, apresentou-se à mamãe atando o laçarote ao pescoço.

No café da manhã as coisas de sempre. A doença da vovó, os doces e os bolos. Tudo na cesta. Que ela deveria levar à pobre avozinha, tão doente! Que não demorasse. E que não passasse pelo caminho da floresta, um perigo, etc. Esta parte, quem não sabe?

Chapeuzinho Cor-de-Rosa enfiou o braço na alça da cesta. Um rápido beijo de até logo e pôs-se a caminho. Mas nesse dia resolveu fazer diferente. Nada de caminho da floresta. Pensando bem, a vila ensolarada,cheia de portas e gente nas janelas, era bem mais divertida. Como é que nunca percebera? E lá se foi Chapeuzinho, cantarolando para si mesma o seu último sucesso. De sempre, aliás.

_Pe-la- strada a fooo-ra, eu voou bem so-ziii-nha, le-var-es-tes do-ces para a vo-voziii-nha. E-la mo-ra lon-geo-ca-miii-nho é de-seeer-to…

Enquanto isso, na casa do Lobo…

Por lá também as coisas de praxe. Mais um dia de Lobo-Mau na floresta, à cata de menininhas incautas, desenha-se diante do gajo. Olhadela ao relógio. Com um suspiro, o Lobo reconheceu estar atrasado. Mais um lapso e perderia todas as boas oportunidades de um dia tão promissor! Então lançou-se ao arranjo pessoal, porém sentia o peso de uma preguiça inédita. A repetição da mesmice é um tédio, mas que fazer? Encarando melhor o espelho, quase não se reconheceu! Parecia abatido. Cansado, talvez.

O Lobo voltou ao espelho e conversou mesmo com ele, ali, no duro. Melhor dizendo, debateu com ele. Defendeu-se da mísera imagem retratada. Era um Lobo e tanto. Que o desmentissem todas as chapéus dos últimos cem ou duzentos anos, sabe-se lá quanto tempo tem a história. E as vovozinhas também, se fossem capazes. Era ele um ser temido, detestado e amado por todos os conhecedores do caso, ora bolas!

Muito bem. A longa conversa com o espelho recompôs o seu moral, abatido não se sabe por que cargas. No final, o Lobo achou-se o máximo de novo. E ganhou a rua com ânimo excerbado. Agora tinha o dever de provar a si mesmo que ainda era o bom e velho Lobo Mau de guerra, sem crise.

Na verdade, o prazer lupino de apanhar as chapéus de plantão tinha lá seus altos e baixos. Uma delícia, pegar a vovó e enganar a chapéu com aquela prosa antiga. Gostava especialmente daquela parte do “para que esses olhos tão grandes ?”, e “para que essa boca tão grande?”. Eram sublimes. Mas depois vinha a fuga, uma correria doida, e os caçadores emporcalhando a história com suas carabinas. Meditava nestas coisas refreando a impaciência.

Estrategicamente escondido pelo tronco da árvore predileta, ele deu um tempo. E cedo enjoou-se daquilo. Caçar na espera, vamos lá, é para quem está com todas as coisas em ordem e tudo em dia. Não era o seu caso. Hoje ele tinha pressa. Pressa de sair-se bem nesse dia que já esboçava um revés. Precisava dar uma sacudida e logo percebeu que ali não aconteceria nada. Então…nesse dia ele resolveu agir diferente. Pela primeira vez em séculos, também ele se decidiu pelo caminho do povoado, cheio de portas e janelas com gente acenando bons dias.

E foi aí que ele a ouviu. Diria mesmo que, antes de ouvir, ele a pressentiu. Cantarolando docemente para si mesma, a sua lenga-lenga fazia o caminho parecer mais curto para chegar à casa da vovó.

_…ela mo-ra looon-ge,o-ca-miii-nho é de-seeer-to, e o Lo-bo Mau pas-seei-aaqui por per-to…Mas à tar-diii-nha, ao sol po-en-te, jun-to à ma-mãe-zinha dor-mi-rei con-ten-te…

Quando ela apareceu na curva do caminho, o Lobo não soube dizer o que sentiu. Não sabia dizer se via o sol róseo da tarde se recolhendo, ou o sol vermelho do dia raiando, colorindo as nuvens e o mundo ao seu redor. Ela era todo o sol que a vida árdua de lobo pedia: leve, saltitante, saudável no seu passo ágil e confiante, Chapeuzinho Cor-de-Rosa era tudo o que o Lobo sempre quis e nunca teve. O sol encarnado em pessoa. E o som da voz baixinha, angelical, pareceu divino mesmo aos ouvidos grotescos de um pobre lobo cansado.

O Lobo não teve dúvida. Ronronando suavemente o motor da moto, aproximou-se da donzela roncando baixinho. Na verdade, ronronava como um bichano feliz.

Neste momento, Chapéu também o viu. Foi um choque.Elétrico.Faltaram palavras, mas sobraram faíscas. Seus olhos brilharam como mil sóis, presos olho no olho. Disseram alguma coisa boba, só por pretexto, e o olho no olho. O que é que um anjo fazia por ali? (Invertendo a história, ele é que deveria ser “o anjo da floresta”…) Ia à casa da vovó levar uns doces…e tal…Poderia um pobre lobo acompanhá-la…Talvez levá-la, se ia tão longe?…Não sei, não devo…a mamãe falou…Quê isso…Por favor, deixe-me levá-la…

À hora do almoço, mamãe consulta o relógio, preocupada. E a Chapéu que não chega, meu Deus? Nesse momento o ronco de um gatinho, o ronco sereno de motocicleta em baixa rotação obriga mamãe a olhar pela janela.

Lá fora, estaciona suavemente a moto negra, com um lobo vestido de negro, e uma meninha vestida de rosa.

Entre o alívio e a supresa, enquanto mamãe ergue os olhos a Deus, Chapéu e o Lobo trocam um suave beijo de amor.

Moral da história: todo Lobo Mau tem seu dia de Romeu.

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About zulmiranda10

Redatora e revisora de textos. Autora do livro Caixinha de Segredo, poesia e histórias infanto-juvenis.(Gurupi: Editora Veloso, 2010. 92p.)

Discussion

2 thoughts on “CHAPEUZINHO COR-DE-ROSA

  1. nossa!

    Posted by feret | April 10, 2012, 7:52 pm
  2. muito legal essa historia adorei

    Posted by roseli | February 14, 2013, 12:41 pm

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